ESCRITOR GUINEENSE JÚLIO MÁRIO SIGA DEFENDE QUE SEM LITERATURA NACIONAL NÃO HÁ ENSINO EFICÁZ DO PORTUGUÊS
O docente universitário Júlio Mário Sigá defende que a valorização dos elementos culturais nacionais é essencial para um ensino eficaz do português como segunda língua na Guiné-Bissau.
A posição foi defendida durante uma entrevista à Rádio Sol Mansi esta segunda-feira (21 de julho), por ocasião do lançamento do seu mais recente livro, intitulado "Divulgação e Consolidação do Português Língua Segunda na Guiné-Bissau", uma proposta baseada na análise do sistema literário guineense.
Ao abordar o papel da literatura nacional no ensino do português, Sigá destacou a importância da criação de um cânone literário baseado na realidade do país, respeitando a diversidade étnica existente.
Segundo o autor, a seleção de obras de autores guineenses para utilização no sistema educativo deve considerar critérios como qualidade, premiação e adequação aos valores da sociedade que se pretende construir.
“Somos diferentes, mas isso nos torna um povo muito rico. Esse é o objetivo da educação. Se continuarmos a ensinar português com livros de outros países, usando autores cujas obras não têm ligação com a nossa realidade, estaremos a formar cidadãos distantes da sua própria cultura. A sociedade que queremos construir não é portuguesa, é guineense, com os seus próprios valores e realidades culturais”, declarou.
Siga também chamou a atenção para os desafios enfrentados pelos professores na transição do ensino do português como língua materna, modelo herdado do contexto lusófono para o ensino como segunda língua, mais adequado à realidade local. A instabilidade política foi apontada como um dos principais obstáculos à implementação de reformas estruturantes no setor educativo.
O linguista defende que o ensino do português como segunda língua pode reforçar o exercício da cidadania e ampliar oportunidades profissionais para os guineenses. No entanto, alerta para a necessidade urgente de aumentar a taxa de falantes do idioma no país, atualmente estimada em apenas 27%.
Por: Belizário Cali

