Artigo de Opinião: POLÍTICA TARIFÁRIA AMERICANA: REAÇÃO DO BRASIL E ILAÇÕES PARA A GUINÉ-BISSAU

A crescente multipolaridade e o recrudescimento das disputas comerciais internacionais ganharam novo capítulo em 9 de julho de 2025, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, comunicou por meio de carta oficial, a imposição de tarifa de 50 % sobre todas as exportações do Brasil a partir do dia 1 de agosto do mesmo ano.

Na carta, Trump associou a nova tarifa ao andamento, no Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil, do processo que investiga o ex‑presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, procedimento que ele classificou como uma “witch‑hunt” (caça às bruxas). O presidente norte‑americano manifestou respeito por Bolsonaro e deixou claro seu descontentamento com a maneira como o seu aliado vem sendo julgado no Brasil.

Ao reagir sobre a referida missiva, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, destacou a independência e a soberania brasileira. O petista invocou, ainda, a Lei da Reciprocidade para retaliar com tarifas equivalentes sobre produtos norte-americanos (em caso não funcionar a diplomacia), além da possibilidade de recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC).

A resposta institucional proferida por Lula da Silva foi acompanhada de mobilização social rara em um cenário político polarizado. Transcorridas 72 horas do anúncio, mensagens de diferentes espectros políticos e ideológicos convergiam na defesa da soberania e do Judiciário brasileiros, associando o tarifário norte-americano ao bolsonarismo.

Uma sondagem do Datafolha, publicada em junho de 2025, registrava que, entre abril e junho do mesmo ano, a aprovação do governo liderado por Lula da Silva, entre os brasileiros que o consideram ótimo ou bom, oscilava entre 28% e 29%. No entanto, após o anúncio de taxação por parte de Donald Trump e a consequente resposta nacionalista de Lula, a aprovação do presidente subiu para 49,9%, de acordo com a última pesquisa da AtlasIntel-Bloomberg, citada pela UOL.

Esse movimento demonstra que, ao contrário da intenção de Trump - que buscava proteger Jair Bolsonaro diante do poder Judiciário brasileiro por meio de ameaças tarifárias, a taxação anunciada produziu efeitos contrários, ao recuperar a popularidade do Lula (adversário político do Bolsonaro), reforçando as suas chances de reeleição no escrutínio de 2026.

O aumento da popularidade do presidente Lula da Silva não resultou apenas de sua firme postura ideológica e de uma política externa orientada pelo eixo do Sul Global, mas também reflete a união do povo e da sociedade brasileira, que, por meio de uma cidadania ativa, foi capaz de superar diferenças políticas e ideológicas, ao perceberem que se trata de defender os interesses e as instituições nacionais, rememorando a capacidade histórica dos cidadãos e de atores politicamente distintos de se unirem diante de ameaças externas.

Esse episódio oferece uma referência valiosa à Guiné-Bissau, país mergulhado em crise política e institucional, na qual os atores políticos têm alimentado não só as divisões partidárias, mas também tensões culturais, religiosas e étnicas – fragmentações que enfraqueceram a capacidade coletiva dos cidadãos guineenses de defender seus interesses soberanos diante de interferências externas.

Embora a polarização seja uma característica recorrente da política e da democracia contemporânea, ela não pode prevalecer quando estão em risco os interesses fundamentais da nação. Porque quando priorizada, ela reforça estratégias de dominação externa por meio de “dividir para reinar” com o objetivo de alimentar o neocolonialismo, tal como referenciava Kwame Nkrumah.

Nesse sentido, ainda que seja com novas roupagens, é pertinente resgatar o princípio de “Unidade e Luta”, um slogan pregado pelo Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) durante a luta armada anticolonial liderada por Amílcar Lopes Cabral.

“Unidade e Luta” trata-se de um projeto de coesão política e sociocultural de Amílcar Cabral para Guiné-Bissau e Cabo Verde, que encontra respaldo no Pan-Africanismo. No entanto, depois da morte de Cabral e da Proclamação da Independência da Guiné-Bissau em 1973, “Unidade e Luta” começou a apresentar suas fragilidades, que se intensificaram ao longo dos 30 anos de democracia com a emergência de novas formações políticas, que ao fortalecerem o pluralismo democrático, aceleraram também a polarização social no país, fomentando a divisão étnica, religiosa e cultural.

Essa deterioração tem contribuído para a fragilidade institucional da Guiné-Bissau, tornando o país vulnerável a interferências externas de diversas naturezas. Enquanto isso, os atores políticos priorizam agendas partidárias e pessoais em detrimento dos interesses soberanos do povo.

A experiência brasileira demonstra que a coesão social frente a desafios exógenos não apenas é possível em contextos polarizados, como também pode se constituir em um arsenal estratégico para a consolidação democrática, desafiando a crença de que a política democrática só faz sentido em contextos de disputas internas.

Assim, tal como aconteceu no Brasil é possivel e necessário um certo nível da coesão interna na Guiné-Bissau para a consolidação da cultura política que priorize os interesses nacionais e que reative o ideal de unidade popular diante de ameaças externas.

Isso pode ser alcançado por meio dos esforços políticos internos, da educação cívica continuada, da promoção de debates sérios nos meios de comunicação de massa, bem como por meio da ampliação e fortalecimento de espaços de diálogo inter-religioso e interétnico - esforço que já vem sendo desenvolvido pelas instituições religiosas no país.

 

Por: Luizinho Jorge Cá - Doutorando e Mestre em Ciência Política pela UFRGS

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