OPINIÃO: GUINÉ-BISSAU, UMA MIRAGEM DE SONHOS

As autoridades do Estado da Guiné-Bissau também não deverão ser vazadouro de lixo, como é para todos os setores sociais; a política se faz com convicção, tolerância, amor à pátria e ao próximo. Existem interesses pessoais como se costuma dizer, mas antes o bem comum deveria estar em primeiro plano.

A Guiné-Bissau cada dia que passa surpreende o seu humilde povo de que jamais encontrará os caminhos da Paz e estabilização governativa. Talvez seja a altura ideal para as autoridades religiosas intervirem, porque a classe castrense já não quer, em circunstância nenhuma, participar no «djambadon» dos políticos; mas políticos sem convicção política ou sem interesse em fazer política de desenvolvimento social e económico e de crescimento sustentável.

Parece-me ser o caminho a seguir, o notável exemplo de Timor-Leste «kume na mesmu kabass», aliás o guineense já havia comido no mesmo cabaz e continua a comer, sobretudo no interior do país. Quem vive lá sabe do que estou a falar. Há dias num dos hotéis de Bissau, participei de um ateliê sobre o Radicalismo e Extremismo na África Ocidental e na Bacia do Lago Chade, onde foram apresentados os dados de quatro (4) ateliês anteriores de restituições decorridos no mês de junho de 2019, o evento foi promovido pela União Europeia na Guiné-Bissau. Permitam-me relatar-vos alguns dados partilhados sobre a Guiné-Bissau no que concerne à perceção do fenómeno e suas causas, foram identificados alguns pontos, entre os quais destaco-vos um: a classe política. E ainda em relação aos ateliês de restituição, os fatores de vulnerabilidade, destaco-vos entre outros pontos, as questões políticas, outra vez. Uma mera coincidência ou não.

Com isso, permite perceber que na Guiné-Bissau talvez a política egoísta seja aquela que tem trazido e/ou supostos conflitos na camada social.

As eleições presidenciais que se aproximam podem (não estou a ser pessimista) agudizar o fraco estado de relacionamento entre instituições de soberania.

Queria ainda relembrar aos meus concidadãos de que Amílcar Cabral já havia avisado da condição em que nós, guineenses nos encontramos, e que não precisamos de voltar ao passado para resgatar o que já foi enterrado, isto é, «sabendo de onde partimos, temos que saber bem para onde vamos. Mas uma pergunta: estamos a fazer isso para voltarmos ao tempo em que os manjacos e pepéis brigavam muito, em que os mandingas e balantas não se entendiam? Não, nós estamos a libertar a nossa terra para avançarmos como outros povos no mundo, para o progresso, para uma vida de dignidade, para a unidade da nossa terra, nacionalmente, para ajudarmos a levantar uma África nova e melhor. Esse é que é o objetivo da nossa luta, no quando do mundo, da humanidade, à qual pertencemos como seres humanos». Parece que esse assumir de responsabilidade tem faltado muito a nós guineenses e muito mais aos nossos políticos. Importa frisar de que muitos têm chamado Cabral como exemplo, e muitos obviamente não o têm lido, ou então, as suas ações não vão de perto as mentalidades desse homem culto que ultrapassa gerações.

Tenho assistido, sentado na minha cadeira, a preocupante situação em que a Guiné está a trilhar, ou seja, está a ser levada. Num Estado em que as cores partidárias falam mais alto de que a tecnicidade ou cientificidade, dá para lamentar e/ou chorar. Quem diz neste país que trabalha muito é porque é um indivíduo honesto e humilde. Parece que a política seja o único espaço em que as contribuições se fazem ou se devem fazer. Temos assistidos lamentavelmente o discurso, em qualquer canto do país, nas bancadas e nos convívios/djumbais com colegas e amigos, a habitual dissertação «abô gora ku nivel di skola ku bu tene, si bu fassi politica, buna sindi rapidu» (pelo teu nível escolar, se decidires fazer a política vais poder mudar o teu estatuto social, isto é, safar-te na vida). Sim, parece que cá na Guiné a contribuição só é válida no campo da política partidária. Com esse tipo de discurso, a escola também não faz parte da progressão social e económica de nenhum guineense. Outrossim, tem-se ouvido ou assistido com alguma pena discursos como: «os letrados comprovaram que não podem mudar o rumo do status quo que o país se encontra». A minha humilde pergunta é seguinte: o Estado da Guiné-Bissau será mudado por pessoas que não conseguem planificar ações, atividades governativas?

Não sejamos hipócritas, não enganamos as pessoas porque queremos que nos façam favores, mesmo sabendo que essas não serão capazes de programar o desenvolvimento. O desenvolvimento é programado, baseando em ações concretas a curto, médio e longo prazos. Ele não se faz com apenas ações pontuais, mas sim ações projetadas e harmonizadas.

As eleições presidenciais (de 24 novembro?) que se avinham parecem-me a mim que é uma miragem. Nem parece é aí que a Guiné-Bissau vai resolver definitivamente a sua questão de estabilização, não estou a ser pessimista, estou a analisar a realidade. Já havia feito quando houve o acordo de incidência parlamentar entre o PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde e APU-PDGB Assembleia do Povo Unido – Partido Democrático da Guiné-Bissau), partindo do princípio dos anteriores acordos firmados na Guiné que nunca se chegaram ao fim. Estamos a falar da crise da liderança ou da falta de ética política. Parece que na política também se exige a ética!? Mas o que acontece neste país parece uma ‘brincadeira de mau gosto’, da falta de compromisso e seriedade política. A nosso ver, parece que na política da Guiné-Bissau o que é vermelho hoje, amanhã pode ser branco.

Trouxe apenas esse elemento como uma mera ilustração do que tem acontecido no campo político neste martirizado povo. Podíamos recuar um passado muito recente de pacto de estabilização afirmado entre o PAIGC e PRS (Partido da Renovação Social) em 2014. Que dada a situação de desconfiança ou algo deste género levou a queda do Governo liderado pelo Eng.º Domingos Simões Pereira e que depois o PRS tem assumido outra postura para, segundo os seus líderes, viabilizar o país, tendo participando em todas as ações governativas dos sucessivos governos nomeados e demitidos pelo então presidente da República da Guiné-Bissau.

Voltando ao centro da questão, gostaria de ser muito bem compreendido pelos leitores desta reflexão minha, estou preocupado com gerações, inclusive a minha, e nunca tenho agendas políticas, aliás, se eu decidir fazer a política, faria com enorme prazer e convicção, certamente, mas na Guiné-Bissau, os melhores é que estão a retirar-se deste campo. De uma conversa privada que tive com um político, também um amicíssimo, tem-me dito que ‘os políticos é que comandam na nossa vida’. Concordo plenamente com ele, mas num outro ângulo, tive uma conversa com uma pessoa, isso já no campo da educação, depois de eu sentir um pouco traído pela profissão, e estou a falar do segundo ano da minha docência, que me queria afastar e arranjar outra profissão, inclusive fazer a política; este indivíduo; sabem o que me disse sem rodeios? «Na educação (falamos da Guiné) os melhores estão a retirar-se da profissão docente». Na altura eu era um assumido político. Mas dada as circunstâncias, vinha afastando-me aos poucos, chegando já a este preciso momento na cauda ou talvez já sem interesse de vir a fazer a política. Digo por outras palavras, a pessoa que me aconselhou para não abandonar à sorte a minha profissão, hoje em dia, pior de tudo, abandonou o país e está a viver por mundo fora. Trouxe este elemento para mostrar o que as pessoas assumidas a política devem fazer com o propósito de gerir a vida das populações, senão muitos vão ter que fugir a procura de melhores condições de vida. Onde?! Talvez eu seria dos poucos guineenses que está a ser enganado pela fé de que a Guiné conhecerá os seus melhores dias. Quando? Também, talvez seria dos poucos guineenses que tenha condições de abandonar este país e ir viver em qualquer parte do mundo. Mas estou a ser enganado pela fé? Talvez seja!

A tolerância é chave de ouro para desbloquear o país. Estamos a reentrar no mato onde estávamos a sair aos poucos, com isso quer dize que estamos a voltar ao passado. Faria todo o sentido voltarmos ao passado com o propósito de o perceber, e não ir ao passado para resgatar os valores conflituosos. Os meus amados compatriotas, antes de entrarem na política, eram pessoas com valores, princípios, dignidades. Esses preceitos universais que Deus nos concedeu devem ser usados com o seu verdadeiro valor para gerência de conflitos de várias ordens numa relação interpessoal.

Volto a apelar as entidades religiosas no sentido de intervierem com alguma urgência para salvar a Guiné-Bissau e o seu povo sofredor para que, pelo menos, um guineense consiga tomar uma refeição completa na sua mais profunda pobreza, isto é, pequeno-almoço/mata-bicho, almo/djanta, jantar/cía. As estradas são inacessíveis, tanto na cidade capital Bissau como em toda a parte do país, sem hospitais em condições de atender ao mais elementar problema de saúde, onde cada dia que passa morre indivíduos tão novos.

Parece-me que os nossos políticos não estão a encontrar soluções para responder às necessidades vitais do guineense, por exemplo, existem pessoas que ainda não conseguem levar para o estâmago um pedaço de pão. Onde está o comprometimento dos governantes?

Apelo, por outro lado, as pessoas que tencionam fazer a política para enveredarem pelos padrões morais e éticos.

Basta os cidadãos de primeira classe!

Basta a fome na Guiné-Bissau!

Basta a luta pelo poder!

Basta a intolerância política no meu querido país!

Viva a nossa pátria sofredora que foi sonhada por muitos, inclusive Cabral!

Por: Professor guineense, Luís Blak

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